Há uma pergunta que ouço na urgência com uma regularidade quase matemática. Não é sobre diagnósticos raros, nem sobre doenças complexas. É sempre, invariavelmente, alguma variação de: "Doutor, quando é que eu devia ter vindo?"
Às vezes é uma mãe com um bebé com febre de 38,2°C há seis horas, que chegou às 2 da manhã depois de uma noite a olhar para o tecto. Às vezes é um pai que esperou três dias com uma criança que mal conseguia respirar porque "não queria incomodar". O espectro é enorme — e nos dois extremos, a origem é a mesma: falta de informação fiável, acessível e compreensível.
O problema com o Dr. Google
Não tenho nada contra os pais que pesquisam. Tenho tudo a favor — um pai informado é um parceiro melhor no cuidado do filho. O problema é que o ecossistema de informação de saúde online é um desastre. Fóruns de mães onde a experiência anedótica circula como evidência. Sites de clínicas privadas onde cada sintoma leva a uma consulta urgente paga. Influencers de saúde sem qualificações a dar conselhos sobre antibióticos.
E depois há o outro lado: a informação correcta mas inacessível — guidelines em inglês técnico, artigos científicos atrás de paywalls, recomendações pensadas para profissionais de saúde, não para pais às 3 da manhã com um bebé a chorar.
Vinte anos a responder às mesmas perguntas
Trabalho no Serviço Nacional de Saúde há mais de vinte anos. Uma parte significativa desse tempo em Cuidados Intensivos Pediátricos, onde vejo o que acontece quando as coisas correm mal. Aprendi a reconhecer os sinais de alarme que os pais deveriam conhecer. Aprendi também que o problema raramente é falta de amor ou descuido — é falta de mapa.
Durante anos, a minha resposta foi optimizar o tempo de consulta para explicar o máximo possível a cada família. Mas há um limite físico ao que cabe numa consulta ou numa avaliação de urgência. E a informação que transmitia em cinco minutos tensos às 2 da manhã não é a mesma que transmitiria numa conversa calma.
O PediaSOS nasceu da vontade de ter essa conversa calma com todos os pais, antes de precisarem de vir à urgência.
Porque demorei tanto
A ideia existe há anos. O que demorou foi perceber como fazê-lo de forma deontologicamente correcta, clinicamente rigorosa, e ao mesmo tempo genuinamente útil para quem não tem formação médica.
Há uma tensão real nisto. A medicina é cheia de nuances, de "depende", de "em geral mas há excepções". Simplificar demasiado é perigoso. Não simplificar é inútil. Encontrar esse equilíbrio — ser exacto sem ser hermético — é o trabalho mais difícil deste projecto, e provavelmente nunca ficará totalmente resolvido.
Mas prefiro tentar e corrigir ao longo do caminho do que não tentar. As famílias merecem melhor do que o vácuo que existe agora.
O que o PediaSOS não é
Não é uma consulta médica. Não substitui o vosso pediatra. Não é um serviço de urgência. É informação — clara, honesta, baseada em evidência — para que possam tomar decisões mais informadas sobre quando agir e como.
Se depois de lerem um artigo aqui decidirem ir ao Urgência e o médico disser que não era necessário, não me importo. Prefiro mil vezes que venham e não precisem do que não venham e precisem.
Obrigado por estarem aqui. Continuarei a escrever.
— Pedro