Nas últimas semanas recebi a mesma mensagem em variações ligeiramente diferentes: "O dentista/IBCLC/enfermeira disse que o meu bebé tem o freio curto e precisa de ser cortado." Às vezes é o freio lingual (anquiloglossia), às vezes o freio labial superior. Quase sempre o diagnóstico foi feito rapidamente, e quase sempre foi acompanhado de uma lista de problemas que o freio supostamente estava a causar: dificuldade na amamentação, gases, cólicas, dificuldades de sono, refluxo.
Vou ser directo: a grande maioria destas frenectomias não tem indicação clínica sustentada pela evidência. E o facto de se ter tornado um procedimento de rotina — cobrado, promovido e por vezes alarmisticamente apresentado como urgente — é um problema de saúde pública que me preocupa profundamente.
O que é o freio labial e o freio lingual
O freio é uma prega de tecido mucoso normal, presente em todos os seres humanos. O freio lingual liga a face inferior da língua ao pavimento da boca. O freio labial superior liga o lábio superior à gengiva. A anquiloglossia — vulgarmente chamada "língua presa" — é uma variante anatómica em que o freio lingual é mais curto ou mais espesso do que o habitual, limitando a mobilidade da língua.
A prevalência real da anquiloglossia clinicamente significativa é de 4 a 11% dos recém-nascidos, dependendo dos critérios de diagnóstico utilizados — e aqui está o primeiro problema: não existe consenso internacional sobre o que constitui um freio "patológico". As classificações mais usadas (Hazelbaker, Coryllos, Bristol) têm fiabilidade inter-observador moderada na melhor das hipóteses. Dois profissionais a observar o mesmo bebé chegam frequentemente a diagnósticos diferentes.
O que diz a evidência sobre frenectomia e amamentação
Este é o argumento central para a maioria das frenectomias em recém-nascidos: o freio está a dificultar a amamentação. A evidência é, no mínimo, mista.
Uma revisão Cochrane de 2017 (Segal et al.) analisou os ensaios controlados randomizados disponíveis e concluiu que a evidência é de baixa qualidade e que não é possível afirmar com segurança que a frenectomia melhora os resultados da amamentação de forma clinicamente relevante. A Academia Americana de Pediatria (AAP) e a Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (ESPGHAN) não recomendam frenectomia de rotina. A SPP (Sociedade Portuguesa de Pediatria) não tem recomendação formal a favor da frenectomia sistemática.
Existe evidência de que em casos seleccionados — anquiloglossia grave com dificuldade objectiva e documentada na amamentação, avaliada por profissional experiente — a frenotomia pode ter benefício a curto prazo na dor materna durante a amamentação. Esse subgrupo existe. O problema é que não representa a maioria dos casos diagnosticados actualmente.
A lista de sintomas que "o freio causa"
Cólicas, gases, refluxo, dificuldades de sono, problemas de fala futura — tenho visto estas associações feitas com uma confiança que a literatura não suporta. Não existe evidência robusta de que o freio labial cause cólicas, gases ou refluxo. Estes são sintomas extremamente comuns nos primeiros meses de vida, com causas multifactoriais bem estabelecidas, e atribuí-los ao freio é, clinicamente, um atalho indefensável.
Quanto à fala: a maioria das crianças com anquiloglossia não desenvolve problemas de fala, e os estudos prospectivos não demonstram que a frenectomia preventiva em bebés reduza problemas articulatórios na idade escolar.
Porque é que o número de frenectomias explodiu
Esta é a parte mais incómoda. A frenectomia a laser tornou-se um procedimento lucrativo, rápido e com aparência de baixo risco. Proliferaram cursos de formação para IBCLC, dentistas e outros profissionais no diagnóstico de anquiloglossia. Grupos de apoio à amamentação online tornaram-se circuitos de amplificação de experiências individuais positivas. O resultado é um ecossistema onde o diagnóstico é generoso e a intervenção é a resposta padrão.
Não estou a dizer que todos os profissionais que realizam ou recomendam frenectomias agem de má-fé. A maioria actua de boa-fé, com formação que recebeu e dentro de um contexto que criou incentivos para intervir. Mas o efeito agregado é um sobrediagnóstico e sobretratamento com impacto real em famílias vulneráveis — num período já de si exigente.
Quando a frenectomia pode ser adequada
Para ser completamente justo com a evidência disponível: existem casos em que a frenotomia é razoável. Especificamente:
Anquiloglossia grau III ou IV (classificação de Coryllos) com dificuldade documentada e objectiva na amamentação — dor materna severa persistente, má pega apesar de suporte especializado, ganho ponderal insuficiente — após ter sido excluída outra causa e após suporte por IBCLC experiente ter sido tentado sem sucesso.
Este é um subgrupo real. Existe. Mas é consideravelmente mais pequeno do que o número de procedimentos actualmente realizados sugere.
O diagnóstico foi feito em menos de 5 minutos · A lista de sintomas atribuídos ao freio inclui cólicas, gases ou refluxo · Não foi oferecido apoio de lactação como primeira abordagem · A urgência da intervenção foi apresentada sem avaliação funcional documentada · O procedimento é cobrado no mesmo momento em que é diagnosticado.
O que fazer se lhe disseram que o bebé precisa de frenectomia
Primeiro: não entre em pânico e não tome uma decisão imediata. Um freio curto não é uma urgência cirúrgica na quase totalidade dos casos.
Segundo: peça uma segunda opinião ao vosso pediatra ou médico de família. Se a dificuldade na amamentação for real, solicite apoio de uma IBCLC — muitas vezes o problema resolve com técnica e posicionamento.
Terceiro: se após avaliação rigorosa a indicação for confirmada, o procedimento em si (frenotomia simples) é de baixo risco quando realizado por profissional experiente. Não é a intervenção que questiono — é a indicação.
Esta é a minha posição clínica baseada na evidência disponível em 2026. Se o vosso pediatra, após avaliação cuidadosa, tiver uma opinião diferente fundamentada no quadro específico do vosso filho — ouçam-no. A medicina é feita de casos individuais, não apenas de médias populacionais.
— Pedro